quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Fanfics: Brilho Desse Olhar (resenha)



Título: Brilho Desse Olhar
Categoria: Original/Songfic
Autor(a): Mrs. Poe

Mais uma vez venho falar de trabalho nacional. Mais precisamente, o trabalho original de Mrs. Poe, com Brilho Desse Olhar, uma songfic baseada na canção Dia Especial, do Tiago Iorc.
A pequena história narra a vida de Pedro, um estudante de Arquitetura e Urbanismo, e Cláudia, uma garotinha travessa, que carrega inocentes e afáveis sentimentos pelo rapaz. Acontece que o relacionamento dos dois, sem maldade alguma, não é bem visto pelos pais de Cláudia. Até que a menina é forçada a estudar fora, e os dois se veem quebrados pela despedida e inevitável falta que um faria na vida do outro.
A história abraça o leitor de forma inefável, restando apenas uma opção: ler. Diferente da maioria, essa songfic consegue um perfeito casamento entre a música e a trama. É tão sublime quanto a canção do Tiago Iorc, e me pergunto se os dois conversaram sobre fazer uma história a partir da música.
Assim como tantas sonfics, o clipe é incluído na trama, mas sem perder o sentido – um pecado que muitos autores acabam cometendo, no auge da empolgação. E não, a inclusão do clipe, jamais, descredita a autora. A cena pode não ser inteiramente oriunda de sua imaginação, mas a narração sim. Sua narração é legítima e pessoal, apoderando-se da ideia de tal modo que, nós, leitores, nos esquecemos da existência da música.
Sobre o enredo, a promessa de Pedro é uma amarra que não só o enlaça com Cláudia, mas também o leitor com a trama. E seu relacionamento com a mãe, empregada na casa da pequena menina, é responsável pela identificação com boa parte do público – até mesmo aqueles que não têm esse tipo de convívio, mas, de certa forma, desejam.
Entretanto, sua proposta é audaciosa. Devo dizer que a evolução da relação de Pedro para com Cláudia é perigosa – mas nunca indevida –, pois a chance de uma ocorrência da má interpretação é monstruosa, e pode repelir boa parte dos leitores – estes mais tradicionais.  Diante desse ponto, percebe-se que a história não é para qualquer tipo de leitor, mas, se levada à diante, revela um caráter transformador. Posso assegurar que você, leitor tradicional, não será mais o mesmo após a leitura, e será forçado a repensar nas conjecturas que o fizeram voltar um passo nas primeiras impressões.
Além disso, lendo Brilho Desse Olhar, compreendemos que, quando se tratada de contar boas histórias, não importa a quantidade de palavras e capítulos, já que a fic contém apenas dois. Boa história é sempre boa história, e são poucas as características que as tornam extraordinárias – e tamanho, com certeza, não é uma delas.
Portanto, Mrs. Poe prova que uma boa história não possui nacionalidade, e sim essência. Ouso até em dizer que, diante desta, muitos autores se envergonhariam em pensar que para escrever algo bom precisa-se de um território estrangeiro. Com sutileza e pureza, ela engrandece a cultura brasileira, algo, sem dúvidas, necessário para os olhos de nossos leitores – visto que o preconceito com a leitura nacional é insistente.
Criticamente digo que sua escrita é simples e genuína, transformando o ordinário em extraordinário, o que me parece ser um recado para os escritores: vocês não precisam de palavras difíceis, ou de parágrafos complexos. Vocês só precisam escrever. Amor, dedicação e talento são respingados neste trabalho.
E finalizo dizendo que, ao gastar meu tempo com a fic, sou tirada da minha zona de conforto, e Mrs. Poe me apresenta o Brasil, meu país que tanto desconheço, por conta do estrangeirismo; e me apresenta também uma admirável forma de contar boas histórias, e de ser marcado por elas. 

Nota: 10

Você pode conferir esta história clicando aqui.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Entrevista: Nina Spim


Para abrir a seção de entrevistas do Lescrita, convidei a autora Nina Spim para uma conversa. Nina produz textos para seu blog literário, chamado Nina é uma, e é conhecida por escrever fanfictions da série Glee – seu shipp mais comum é Faberry. Teve textos literários publicados nos sites Blogueiras Feministas e ContiOutra. Faz parte da equipe do site Leitura Dinâmica e teve dois contos publicados pela Andross Editora ("Heart and Love" na Antologia Amor nas Entrelinhas e "Coisas, simplesmente, de Amélia", na Antologia Aquarela).
Conversamos sobre desafios, escrita, literatura LGBT e sobre uma de suas notáveis fics: Love, Rock and Girls. Confira a entrevista abaixo:

Lescrita (Analu): Que tal "começar pelo começo"? (risos). Qual foi seu primeiro contato com a escrita, e o que mais lhe chamou a atenção?
Nina Spim: Desde criança eu escrevo. Gostava de escrever histórias sobre animais falantes, especialmente. Então, descobri o mundo de Harry Potter e comecei a escrever algumas versões para alguns acontecimentos da história. Na época, eu não sabia que isso se nomeava "fanfic". Aos quinze anos, descobri o meu potencial nessa área, devido a uma professora de Português que elogiava minhas redações. O que mais me chamou atenção, e ainda me chama, é que o mundo da escrita é infinito. Basta termos criatividade, imaginação e perspicácia.

Lescrita: E o que seria um bom escritor?
Nina: Difícil saber, pois sou fã de diferentes estilos de escritores. Mas creio que um bom escritor sempre luta por algo, não faz seu trabalho por "somente gostar de escrever". Ele tem que saber por que está escrevendo, tem que ser mais do que um mero escritor que gosta de palavras.
                                                                                    
Lescrita: Quais são os principais desafios que você, como autora, vem enfrentando?
Nina: Quando coloquei a minha cara no mundo com as minhas fanfics, há seis anos, eu não tinha nenhum objetivo a não ser publicar minhas histórias e receber um feedback. Mas, por sorte, amadureci como pessoa, vivenciei situações inimagináveis (como a morte do meu pai) e aprendi lições valiosas em filmes, livros e seriados. A partir desse amadurecimento, pude encontrar um ponto de equilíbrio também no meu lado escritora. Hoje, meu maior objetivo é inspirar as pessoas. Por isso, um dos desafios que enfrentei, foi encontrar algo por que lutar. Posso citar que o maior desafio foi, sem dúvida, sair da minha zona de conforto e me adentrar na literatura LGBT, com as fanfics Faberry. Hoje, me orgulho por ter feito isso, pois é uma "causa" que apoio e fico feliz por estar trabalhando em cima disso.

Lescrita: Falando em literatura LGBT, pretende levá-la de suas fanfics para os livros?
Nina: Totalmente. Tenho um "projeto" já em andamento que aborda bastante essa temática e o meu intuito é dar mais visibilidade a esses personagens e criar discussões mais abertas sobre o assunto.
Lescrita: E o preconceito, já sofreu algum por fazer parte dessa literatura? 
Nina: Se já sofri preconceito? Não, porque nunca falei para ninguém que convive comigo pessoalmente que escrevo sobre isso. Isso se deve ao fato de, majoritariamente, eu expressar essa literatura nas fanfics e ninguém do meu círculo de amizades gosta/entende fanfics. Na verdade, é justamente o contrário. Sinto uma enorme liberdade por escrever sobre essa temática, porque o feedback é muito positivo.

Lescrita: Descontraindo um pouco, explique para nossos leitores – nem todos leem fanfics – por que usar personagens existentes e o que mais lhe agrada nas fics?
Nina: Eu agradeço demais por ter conhecido as fanfics. Penso que eu não seria escritora se não fosse a partir delas. O que mais me agrada é justamente brincar com uma história pré-escrita, pois as possibilidades são infinitas. E você sempre pode quebrar todas as regras de enredo, shippers, mundos etc. O grande prazer de se escrever fanfics é utilizar os personagens, pois, se você gosta muito de um, é como se ele fosse seu amigo e pode desenvolvê-lo mais abertamente de acordo com a sua vontade e sua visão dos acontecimentos.

Lescrita: Como fora mencionado na resenha de Love, Rock and Girls, sua fic é tocante, terna. E consegue falar de amor muito mais do que as fics que são destinadas a falarem sobre desde o esboço, a capa e o título. A proposta da fic seguiu-se até o final? Era de sua intenção desde o início escrever algo amoroso e tocante? Ou a história "escreveu-se sozinha" como alguns autores costumam dizer?
Nina: Eu sempre tento mesclar todas as nuances de personalidade das personagens e, a partir disso, a história se desenrola. Eu adoro romance, então, o âmago de todas as minhas histórias é esse, independentemente se haverá cenas "pesadas" ou "suaves". Então, sim, o meu intuito é sempre deixar evidente o clima amoroso e tocante das histórias, especialmente porque valorizo demais o relacionamento das personagens e, sem esse clima, acho que a relação entre elas não poderia ser construída.

Lescrita: Você envolveu músicas em sua história, algo muito costumeiro por parte dos autores. Para você, qual é a importância de uma música na trama?
Nina: Bem, eu sou, praticamente, movida à música. E, quando ouço música, minha inspiração e a minha vontade de escrever somente crescem. A grande importância é que ela pode ser usada tanto como um "plano de fundo", como um "personagem" da trama, dependendo da ênfase que se dá à utilização desse recurso.

Lescrita: É muito comum que as personagens contenham um pouco do autor. Qual personagem contém um pouco de você, e por quê?
Nina: Então, difícil saber! Acho que todos os meus personagens têm algo de mim. Com relação à Quinn e à Rachel, é bastante mesclado. Acho que há muita confusão e indecisão dentro de mim, como há na Rachel. E uma parte mais "suave" e meio tímida, como há na Quinn.

Fechamos nossa entrevista com o bloco “Bate-bola jogo rápido”:
Um livro: O Apanhador no Campo de Centeio, J. D. Salinger
Um filme: Intocáveis
Uma frase: É somente uma faísca, mas é o suficiente para me fazer continuar.” – Last Hope, do Paramore.
Uma fanfic (bônus*): Já que estamos falando de Faberry, vou citar uma desse shipp: À Prova de Som (da autora Tenteitudo).



* o bônus depende do assunto tratado na entrevista. Nem sempre aparece.

Você pode conferir Love, Rock and Girls clicando aqui, e a resenha aqui.
Nina também está no Facebook e no Blogger, com Nina é uma.