sexta-feira, 6 de março de 2015

Entrevista: Marcia Dantas




Entrevistamos hoje a autora Marcia Dantas, dona do romance Reescrevendo Sonhos, que hoje é vendido de maneira independente, e do conto Sobre Pedacinhos que Formam a Inspiração, da antologia Só sei que te Amo.
Conversamos sobre literatura LGBT, publicação independente e seu primeiro romance, Reescrevendo Sonhos. Confira!


Lescrita (Analu): Sabemos que a caminhada do autor é lenta, e, muitas vezes, cheia de incompreensões. Durante ela, entre os altos e baixos, você já pensou em desistir? Se sim, o que a fez voltar?
Marcia Dantas: Desde que comecei no mundo das fanfics, não me vi mais parando de escrever. Foram poucas as vezes que imaginei entrando em um processo profissional, mas sempre soube que a escrita estaria aqui. Então agora, mesmo em um momento repleto de barreiras ao meu sonho de evoluir como uma escritora, não consigo pensar em desistir. Até porque publicar é simplesmente bom demais para não se desejar fazer mais e mais.

Lescrita: E me fale sobre a sua profissão. Alguns autores tentam casar a escrita com alguma profissão que possa ajudar nas obras. Você tentou fazer esse "casamento”?
Marcia: Isso nunca foi muito algo que tive controle. Entrei na profissão de professora quase que por um acaso, que é uma profissão que me propicia certa flexibilidade nos horários. O crescimento na carreira de professora (e minha efetivação no Estado de São Paulo) veio junto com a minha decisão em me tornar uma escritora profissional. Então tudo se encaixou naturalmente.

Lescrita: Através de seus contos e livros, notamos a existência de casais LGBT. Por que escrever casais LGBT? O que te motiva?
Marcia: Na verdade eu tenho duas motivações muito fortes em minha carreira como escritora: a busca pela representatividade de personagens femininas e a visibilidade de personagens que sejam bissexuais. Veja, duas vertentes dentro das representações culturais (especialmente na literatura) que procuram desesperadamente por um lugar ao sol. Todas as vezes que sento para escrever, minha mente anseia para buscar essas representatividades. Foram coisas que começaram quase por acidente quando comecei meu primeiro romance, Reescrevendo Sonhos, e que agora quero incluir em minhas obras futuras.

Lescrita: Continuando na literatura LGBT: E o preconceito? Você costuma abordar? Há quem diga que esse mal é uma característica da verossimilhança, isto é, precisa ter – nem que seja pouco –, ou então o autor corre o risco de cair na utopia.
Marcia: Eu acho importante abordar as questões do preconceito, mas acho que já temos várias obras que tocam nesse ponto (inclusive estou assistindo a série Empire, e eles fizeram uma ótima abordagem desse tema). O que precisamos agora é de uma normatização. Que a representatividade atinja níveis incontestáveis, a ponto de não encararmos mais as diferenças como algo “estranho”. Assim como em séries como Looking ou The L Word, cuja preocupação é mostrar essas pessoas e seu dia-a-dia (até para que tantas outras possam ter uma identidade cultural devidamente representada).
Claro, é uma utopia. Uma das coisas que aprendi em meu curso é que a mentalidade das pessoas é a última coisa a se modificar. Mas prefiro trabalhar na visibilidade e tentar atingir esse ideal.

Lescrita: Falando em utopia, um assunto muito interessante e vastamente retratado por alguns autores, até que ponto ela é “saudável” para a história e/ou o leitor? Até que ponto é válido?
Marcia: Acredito que, em doses homeopáticas, ela não faz mal. No entanto, como autora vejo como obrigação me aproximar do real ao máximo, ou podemos cair em erros de obras que romantizam relacionamentos que são doentes na vida real.
As representações culturais são uma amostragem de como as pessoas vivem e veem as coisas ao seu redor. Então a realidade influencia e é influenciada por ela. Por isso é importante que se tome cuidado com certas coisas. Nunca se sabe o tipo de mentalidade que se pode reforçar.

Lescrita: Geralmente há apenas uma linha tênue que divide o autor e seus personagens. Isto é, suas criações são parte do seu ser. No seu caso, com quais personagens seus você se identifica, e por quê?
Marcia: Levando Reescrevendo Sonhos em consideração, com toda a certeza Luciana (a protagonista) é a pessoa que mais causa identificação em mim. Até por ter optado por retratar uma escritora, e coloquei nela várias de minhas inseguranças, cacoetes e manias. O modo do funcionamento do cérebro dela também é muito semelhante ao meu.
No entanto, Bárbara também tem um pouco de mim no que diz respeito a se jogar no que quer e acredita, sem pensar muito. Também o instinto protetor dela.

Lescrita: Vamos falar do seu livro, Reescrevendo Sonhos, que atualmente é vendido de maneira independente. Por que optar por uma publicação deste modo?
Marcia: Na verdade no meu caso não está sendo opção (risos). Eu consegui entrar em uma editora, mas ela acabou falindo. Ainda estou esperando pegar os livros e entregar aos que já pediram e então entrar na estrada independente.
 Mas a grande questão é a seguinte, que acabei aprendendo: tem que valer a pena. Seu original é valioso demais para entregar a qualquer um, que não fará o trabalho direito e ainda sugará seus lucros e queimará sua obra. Então não aceite a primeira editora que topar publicar você, porque pode ser que eles não valorizem sua obra do jeito que tem que ser. E, se nada aparecer, seja autor(a) independente. Você saberá como valorizar sua história e esforço, até que algo real apareça.

Lescrita: Falando em obra... Você escreveu um conto - Flores Frescas - para um concurso do Need For Fic (de 2014), que se trata sobre o amar alguém a distância, e separação. O que lhe inspirou a escrevê-lo?
Marcia: Eu posso afirmar que a inspiração direta foi o tema do concurso, que era primeiro beijo. Na minha mente se desenhou a cena desse beijo, que é justamente o trocado entre a protagonista e sua melhor amiga. Daí por diante minha mente viajou e percebi que queria falar das consequências desse momento entre elas. Foi o nascimento do conto (que em breve dará origem ao meu próximo livro).

Lescrita: E, fechando com chave de ouro, qual é a importância da literatura na vida das pessoas?
Marcia: Literatura é vida. É o que tira a gente da realidade por um tempo e faz a gente viajar por coisas maravilhosas. Coloca cores e tira a tristeza e a mesmice da vida.



Bate-bola jogo rápido:
Um livro: Brumas de Avalon por motivos de Morgana.
Um filme: Dirty Dancing
Uma frase: Uma das minhas personagens favoritas em toda a ficção, Ziva David (NCIS), em um dos momentos que mais precisou escutou a frase Aht lo leh vahd (você não está sozinha em hebraico). Virou um mantra para mim.
Uma dica para nossos amigos escritores (bônus*): Caso seja isso mesmo que queiram fazer, não desistam ou desanimem. Façam de tudo um pouco e ainda mais. Mas também não entreguem pouco. Estudem, leiam, perguntem, vejam vídeos sobre dicas para escritores do youtube, blogs especializados, podcasts e, se puderem, invistam em cursos. Sejam o melhor que puderem ser. Vale a pena cada segundo.

*o bônus depende do assunto tratado na entrevista. Nem sempre aparece.


Para ler o conto Flores Frescas, clique aqui.
Visite também o blog pessoal de Marcia Dantas. E acompanhe pelo facebook!

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Fanfics: Brilho Desse Olhar (resenha)



Título: Brilho Desse Olhar
Categoria: Original/Songfic
Autor(a): Mrs. Poe

Mais uma vez venho falar de trabalho nacional. Mais precisamente, o trabalho original de Mrs. Poe, com Brilho Desse Olhar, uma songfic baseada na canção Dia Especial, do Tiago Iorc.
A pequena história narra a vida de Pedro, um estudante de Arquitetura e Urbanismo, e Cláudia, uma garotinha travessa, que carrega inocentes e afáveis sentimentos pelo rapaz. Acontece que o relacionamento dos dois, sem maldade alguma, não é bem visto pelos pais de Cláudia. Até que a menina é forçada a estudar fora, e os dois se veem quebrados pela despedida e inevitável falta que um faria na vida do outro.
A história abraça o leitor de forma inefável, restando apenas uma opção: ler. Diferente da maioria, essa songfic consegue um perfeito casamento entre a música e a trama. É tão sublime quanto a canção do Tiago Iorc, e me pergunto se os dois conversaram sobre fazer uma história a partir da música.
Assim como tantas sonfics, o clipe é incluído na trama, mas sem perder o sentido – um pecado que muitos autores acabam cometendo, no auge da empolgação. E não, a inclusão do clipe, jamais, descredita a autora. A cena pode não ser inteiramente oriunda de sua imaginação, mas a narração sim. Sua narração é legítima e pessoal, apoderando-se da ideia de tal modo que, nós, leitores, nos esquecemos da existência da música.
Sobre o enredo, a promessa de Pedro é uma amarra que não só o enlaça com Cláudia, mas também o leitor com a trama. E seu relacionamento com a mãe, empregada na casa da pequena menina, é responsável pela identificação com boa parte do público – até mesmo aqueles que não têm esse tipo de convívio, mas, de certa forma, desejam.
Entretanto, sua proposta é audaciosa. Devo dizer que a evolução da relação de Pedro para com Cláudia é perigosa – mas nunca indevida –, pois a chance de uma ocorrência da má interpretação é monstruosa, e pode repelir boa parte dos leitores – estes mais tradicionais.  Diante desse ponto, percebe-se que a história não é para qualquer tipo de leitor, mas, se levada à diante, revela um caráter transformador. Posso assegurar que você, leitor tradicional, não será mais o mesmo após a leitura, e será forçado a repensar nas conjecturas que o fizeram voltar um passo nas primeiras impressões.
Além disso, lendo Brilho Desse Olhar, compreendemos que, quando se tratada de contar boas histórias, não importa a quantidade de palavras e capítulos, já que a fic contém apenas dois. Boa história é sempre boa história, e são poucas as características que as tornam extraordinárias – e tamanho, com certeza, não é uma delas.
Portanto, Mrs. Poe prova que uma boa história não possui nacionalidade, e sim essência. Ouso até em dizer que, diante desta, muitos autores se envergonhariam em pensar que para escrever algo bom precisa-se de um território estrangeiro. Com sutileza e pureza, ela engrandece a cultura brasileira, algo, sem dúvidas, necessário para os olhos de nossos leitores – visto que o preconceito com a leitura nacional é insistente.
Criticamente digo que sua escrita é simples e genuína, transformando o ordinário em extraordinário, o que me parece ser um recado para os escritores: vocês não precisam de palavras difíceis, ou de parágrafos complexos. Vocês só precisam escrever. Amor, dedicação e talento são respingados neste trabalho.
E finalizo dizendo que, ao gastar meu tempo com a fic, sou tirada da minha zona de conforto, e Mrs. Poe me apresenta o Brasil, meu país que tanto desconheço, por conta do estrangeirismo; e me apresenta também uma admirável forma de contar boas histórias, e de ser marcado por elas. 

Nota: 10

Você pode conferir esta história clicando aqui.